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Sexta-feira, 30 de Setembro de 1994
"O Gladíolo"

 

[...]

 
Ora um dia naquele jardim nasceu um gladíolo ainda mais mundano do que todos os outro gladíolos.
Quando começou a abrir a sua primeira flor estava o jardineiro a colher gladíolos.
- Vamos para uma festa - disseram os gladíolos colhidos, que estavam em molho dentro de um cesto.
- Que inveja! - disse o Gladíolo.
E foi a sua primeira palavra.
Em seguida, enquanto o jardineiro se ia embora com o cesto cheio de gladíolos cortados, o Gladíolo olhou para si próprio e pensou:
- Sou um gladíolo!
Depois, olhou para as outras plantas e disse:
- Bom dia, minhas caras amigas.
- Bom dia, bom dia - responderam as flores e as plantas.
- Os gladíolos - disse a glicínia - estão na moda. Estão sempre a ser colhidos. Ainda são mais colhidos do que as rosas e os cravos. Nós nunca somos colhidas porque somos muito difíceis de pôr numa jarra.
O Gladíolo, a partir desse momento, compreendeu que havia duas espécies de flores: as que são colhidas e as que não são colhidas. E pensou:
- Que sorte eu ser um gladíolo! Que sorte eu estar à moda, que sorte eu ir ser colhido!
E pôs-se a arrumar bem as suas flores.
Mas daí a dias o Gladíolo teve um desgosto: a dona da casa veio de manhã ao jardim e disse ao jardineiro que estava a podar o buxo:
- Não quero que colhas mais gladíolos este ano. Estou farta de gladíolos. em todas as festas onde vou só há gladíolos.
- Bem - disse o jardineiro. - Não colho mais gladíolos este ano.
- Que tristeza, que raiva, que pouca sorte! - pensou o Gladíolo muito zangado.
Mas resolveu consolar-se.
 
[...]
 
À noite foi à estufa visitar a Orquídea e a Begónia. Na véspera tinha lá estado a despedir-se.
Tinha dito com ar importante.
- Queridas amigas, venho despedir-me porque me parece que amanhã devo ser colhido.
De maneira que a Begónia e a Orquídea ficaram muito espantadas quando o viram aparecer.
- Então não foste colhido? - Perguntaram elas.
- Não, a dona da casa acha que os gladíolos fazem muito falta no jardim e deu ordem ao jardineiro para não os cortar.
- Óptimo - disse a Orquídea - íamos sentir muito a tua falta.
- Já estávamos cheias de saudades - disse a Begónia.
- No fundo - disse a Orquídea - será bom ser colhido?
Então começaram os três a discutir e foi uma conversa muito demorada e muito filosófica mas não chegaram a conclusão nenhuma.
Por fim o Gladíolo cansado de filosofias despediu-se. Foi andando pelos caminhos sob a luz do luar. No fundo do seu coração continuava cheio de pena de não ter sido colhido. Passou perto da casa e parou.
- Vou espreitar a casa - pensou ele - o jardineiro disse que hoje havia visitas.
E aproximou-se de um carvalho antiquíssimo cuja vasta ramagem quase tocava nos muros da casa. Pelas janelas abertas e iluminadas saía a música que se espalhava e flutuava no jardim como um perfume.
- Olá, gladíolo - disse o Carvalho - então ainda não te colheram?
- Não - respondeu o Gladíolo - não posso ser colhido; faço falta no jardim.
- Vieste espreitar a festa? - perguntou o Carvalho.
- Vim, mas daqui vejo pouco.
- Se quiseres podes sentar-te nos meus ramos - ofereceu o Carvalho.
- Obrigada - disse o Gladíolo - aceito o convite.
(...)
 
(...)
Então o Carvalho com um dos seus ramos apanhou-o do chão e instalou-o entre as suas folhas em frente de uma janela aberta.
Lá dentro viam-se homens todos vestidos de preto e senhoras todas vestidas de sedas claras, com brincos nas orelhas e colares no pescoço. E todos riam, conversavam e dançavam.
- Que luxo, que elegância, que riqueza! - exclamou o Gladíolo.
- Sabes - disse o Carvalho - eu sou muito velho, há muitos anos que estou aqui em frente desta janela, tenho visto tantas festas que já nenhuma me espanta.
- Conheces as pessoas que estão lá dentro?
- Conheço-as quase todas.
Nesta altura apareceram na varanda um homem novo e uma mulher de cabelo preto que tinha um vestido de cetim amarelo.
- Quem são? - perguntou o Gladíolo.
- Ela é a mulher mais chique e mais bem vestidas desta terra. É uma espécie de tulipa. Ele é um snobe.
- O que é um snob? - perguntou o Gladíolo.
- É um espécie de Gladíolo.
- Que fazem os snobs?
- Têm muitos amigos e são muito convidade e por isso toda a gente gosta muito deles e os convida muito.
- Que vida extraordinária! - suspirou o Gladíolo.
A senhora e o snob desapareceram e a varanda ficou uns instantes vazia.
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(...)
 
- Ah! - disse o Gladíolo - tenho uma ideia!
- Sim? - interrogou o Carvalho.
- Vou dar uma festa!
- Uma festa?
- Sim, uma festa de flores igual às festas das pessoas. Vou dar uma festa à noite aqui no jardim.
- É uma ideia - disse o Carvalho sem entusiasmo porque estava velho e não gostava de novidades.
- Vai ser maravilhoso! - prometeu o Gladíolo.
- Talvez. Mas é preciso saber se o Rapaz de Bronze dá licença.
- É verdade. Vou já falar com ele. Põe-me no chão.
O carvalho poisou-o no chão e o gladíolo pôs-se a caminho.
Porque a noite é diferente do dia.
E durante o dia as flores estão presas à terra e não se podem mexer. Mas a noite liberta as flores. E de noite as flores dançam e passeiam. E naquele jardim durante o dia mandavam a dona de casa e o jardineiro. Mas durante a noite mandava o Rapaz de Bronze.
(...)
 
(...)
Então o Rapaz de Bronze viu que o Gladíolo estava com ar muito melancólico e amachucado e teve pena dele e disse:
- Não estejas triste. Endireita as tuas pétalas. Podes fazer a festa.
- Obrigada, obrigada, obrigada Príncipe de Bronze - disse o Gladíolo curvando a haste - vou já começar a organizar tudo: vou arranjar uma comissão de organização. A festa pode ser depois de amanhã à noite?
- Pode - concordou o Rapaz de Bronze. - É noite de lua cheia.
- Obrigada - disse o Gladíolo. - tenho muito que fazer; vou-me embora depressa.
E foi-se dali correndo pelas ruas.
A meio do caminho encontrou o vento.
- Vento - disse ele - tenho pressa. Leva-me à estufa.
E o vento pegou no Gladíolo e levou-o pelo ar até à porta da estufa.
- Empurra a porta - pediu o Gladíolo.
O vento empurrou a porta e o Gladíolo entrou voando na estufa.
E o vento foi-se embora e a porta gemendo fechou-se sozinha.
- O que é isto? - perguntou a Begónia.
- O que aconteceu? - perguntou a Orquídea.
Tenho uma notícia, tenho uma notícia! - gritou o Gladíolo.
E contou-lhes tudo.
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A Begónia e a Orquídea ficaram muito entusiasmadas.
E começaram logo os três a discutir todos os detalhes da festa.
Combinaram que devia haver uma "Comissão Organizadora".
Discutiram muito para saber quem havia de fazer parte dess Comissão.
Ao fim duma hora acabaram por fazer esta lista:
Comissão de Organização do Grande Baile de Flores.
 
Gladíolo
Orquídea
Begónia
Tulipa
Cravo
Rosa
 
 
O Gladíolo não queria a Rosa. Achava-a uma flor muito fora de moda.
Mas a Begónia e a Orquídea declararam que era absolutamente preciso pôr a Rosa na comissão.
Depois combinaram que na noite seguinte haveria uma reunião dos seis membros da comissão no jardim do Rapaz de Bronze para resolverem todos os detalhes da festa.
O Gladíolo ficou encarregado de mandar recado à Tulipa, ao Cravo e à Rosa.
E como já era tarde ele despediu-se das suas amigas da estufa e voltou para o canteiro cercado de buxo.
(...)


nescritas às 18:00
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  Sophia de Mello Breyner
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